[Esta postagem foi primeiramente enviada ao departamento editorial do Exército de Salvação, tendo aparecido como artigo da revista 'O Oficial', do 3º Trimestre de 2012]
É muito comum se falar sobre missionários, delineando os desafios
que enfrentam e também as suas atribuições na igreja, com o mundo,
e diante de Deus. O que talvez não seja tão falado é acerca de uma
parte muito importante da vida desses homens e mulheres: os seus
filhos. Eu, como filho de “pastores-missionários” conheço o seu
dia-à-dia, além de saber que seu trabalho não depende somente de
um impulso, dedicação e entrega pessoal - normalmente à tempo
integral - como também de um chamado claro dado por Deus. No entanto
viro meu foco para os filhos de missionários e algumas realidades as
quais são sujeitos, por se tratar de um assunto menos discutido
dentro desse âmbito missionário.
Jovens
transculturais – Third Culture Kids
Não é incomum filhos de
missionários se tornarem crianças transculturais, as vezes mesmo
dentro do próprio país. Isso porque existe uma componente
transitória na profissão de seus pais, à semelhança do que
acontece com filhos de militares, de diplomatadas, de homens de
negócios, de acadêmicos, etc. Isto se dá porque criaram poucas
raízes com a terra natal de seus pais e cresceram em contexto
estrangeiro por causa da profissão dos seus pais. Um artigo da
Claudia Storvik, Filhos bilíngues, faz uma breve descrição do
disso:
"O termo ‘third
culture kids’ (crianças de terceira cultura, ou TCKs) foi cunhado
nos anos 60 pela pesquisadora Ruth Hill Useem, que estudava crianças
que cresciam expostas a duas ou mais culturas, entre as quais seus
próprios filhos. Segundo Useem, crianças que vivem em um país de
cultura diferente da sua se tornam parte de uma ‘terceira cultura’,
que é mais que simplesmente uma mistura das várias culturas a qual
estão expostas.
Useem definiu uma
criança de terceira cultura como uma pessoa que passou uma parte
significativa de sua infância ou adolescência fora da cultura de
seus pais. A pessoa constrói relações com todas as culturas, mas
ao mesmo tempo não pertence realmente a nenhuma delas. Apesar de
assimilar elementos de cada cultura à sua experiência, a TCK tem
mais afinidade com outras TCKs do que com as culturas a que esteve
exposta.
O termo
‘cross-cultural’ (transcultural) foi introduzido pelos
pesquisadores Pollock e van Reken para explicar que ao invés de
observar culturas, como ocorre com expatriados adultos, a TCK de fato
vive as várias culturas a que está exposta." [1]
Resumidamente, uma
criança transcultural pode ter dificuldades na vida adulta em
estabelecer-se numa só cultura, e torna-se por isso inquieta,
sentindo-se constantemente um forasteiro quando se tenta firmar,
tendo como consequência a ânsia de procurar novos desafios
culturais, se deslocando com uma maior frequência na vida adulta que
a maioria.
Não é incomum poderem
ter dificuldades em criar vínculos afetivos duradouros, ou ainda
para assumir compromissos no que concerne à vida acadêmica e
emocional. Isto se dá principalmente porque a vida itinerante
missionária os obriga a se adaptarem a novos contextos sociais,
criando na criança uma estrutura nômade, onde "nada durará
para sempre". No entanto são pessoas com uma grande
probabilidade de serem bilíngues, aventureiras, e extremamente
abertas para a aceitação de novos conhecimentos e culturas. Não é
incomum serem bastante receptivos a estrangeiros, ou ainda ajudar
novos membros a estabelecerem um elo inicial com a igreja, visto já
estarem eles melhor inseridos.
A mesma matéria acima,
aponta que algumas características de crianças transculturais,
descritas pelos pesquisadores são:
- Dominam vários idiomas
- São altamente
adaptáveis
- Têm a mente aberta
- Estão livres de
estereótipos raciais
- Entendem diferenças
culturais
- São socialmente
maduras e independentes
- Adolescentes são mais
maduros que a média mas tendem a demorar mais para sair da
adolescência
- Adultos que foram TCKs
têm mais sucesso na vida acadêmica e profissional do que a
população em geral
- Adultos que foram TCKs
divorciam-se menos que a média da população, mas casam mais tarde
(25+)
Como normalmente as
crianças transculturais estabelecem um senso de pertença maior com
outras como elas, existem comunidades como o tckworld.com, ou ainda o
my.tckid.com (um gênero de “facebook” para jovens transculturais
e seus relativos), que as pode ajudar a se integrarem com outras que
compartilham da mesma experiência.
Como
se encaixa a obra na vida dos filhos de missionários
Além de estarem sujeitos
aos fatores mencionados anteriormente, ainda temos que lembrar que
muitos dos missionários também são pastores, ou servem uma igreja.
E os filhos de missionários partilham de alguns atributos
“especiais” que os diferem, em parte, dos filhos de outros
membros da igreja. I Timóteo 3: 1-10, explica quais são os deveres
dos bispos e diáconos, e no versículo 4 e 5 desse capítulo lemos
“que governem bem a própria casa, tendo seus filhos em sujeição,
com toda a modéstia; (Porque se alguém não sabe governar sua
própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?)”. Os filhos de
pastor são facilmente olhados como um espelho de seus pais, e isso
trás grandes responsabilidades para eles. Têm de procurar
representá-los bem, participando dos cultos, mostrando uma boa
conduta, procurando a sociabilidade e diplomacia com membros da
igreja, e mostrando uma vida espiritual exemplar se possível. Daí
tornam-se mais susceptíveis à críticas do que os filhos de outros
membros normais da igreja. Infelizmente as vezes a pressão
espiritual, emocional e física pode desgastar alguns, fazendo que
estes se rebelem da sua condição (que nada mais é que uma benção
quando conseguem crescer dentro de uma perspectiva saudável).
Mas, por vezes, a
transição de um lugar para outro pode não agir em total beneficio
do filho do missionário, podendo este demorar mais tempo para
adquirir um senso de pertença com a nova comunidade. Por isso é
extremamente importante a igreja orar pelo pastor e também pela sua
família, tratando-os com amor, se lembrando da autoridade lhe que
foi imposta é de Deus, agindo assim em submissão ao pastor que age
em reflexo à Deus.
Poderia dar exemplo de
várias personalidades de renome, filhos de pastores, que acabaram se
desviando do caminho do evangelho, se chocando com o ambiente
eclesiástico ou caindo nos deleites do mundo, como F. Nietzsche,
Alfred Kinsey, os cantores Katy Perry e Chris Martin, etc. Mas creio
que a ideia geral já está subentendida, e a soma desses é também
pequeníssima em comparação com o todo (graças a Deus!).
Perspectivas
futuras de um filho de missionário.
Como crédito, além da
pedalada cultural que normalmente recebe, e da importante herança
espiritual que herda dos pais (que nisso tudo é a coisa mais
proveitosa), os filhos de missionários normalmente aprendem desde
cedo que terão que se tornar autônomos no futuro. A autonomia é na
verdade uma palavra de ordem para eles desde cedo, tanto nos elos
materiais como emocionais. Sua precocidade emocional não vem somente
das várias adaptações culturais e relacionais, ou do seu sentido
incomum de pertença, mas por sabem que um dia “voarão”
sozinhos, mais independentes que a maioria. E quando me refiro a
“elos materiais” não estou me referindo somente à transição
física, mas também à herança material, visto que em boa parte dos
casos os ganhos que missionários recebem são para o seu dia-à-dia,
e alguns deles nem mesmo contam com uma aposentadoria (se é que um
missionário acredita nisso, porque a sua verdadeira herança está
reservada nos Céus). Não preciso mencionar como é típico na vida
de missionários Deus os prover com bens “do nada”, assistindo-os
miraculosamente e lhes dando o que necessitam para prosseguirem a
obra. Mas é comum não deixarem casa, carro, ou mesmo o comum
pé-de-meia para seus filhos quando estes ficarem “independentes”,
e daí existir a percepção precoce que trabalharão por si mesmos
para conseguir o que querem. Apesar deste ultimo fator não ser só
particular aos filhos de missionários, é bom dizer que o
desprendimento cultural em neles intrínseco se mistura com a ideia
que um dia terão que se assentar, ter uma família, e uma carreira.
E com esse “bichinho transcultural” dentro deles, inconstante,
forasteiro, e aventureiro, terão que procurar ideias alternativas
para se estabelecerem, diferente do que um comum mortal que por vezes
nem saiu da sua cidade ou já se encontra “enraizado”. E isso faz
toda a diferença.
Quanto ao papel dos
pais e da igreja.
Sem dúvida os filhos
devem também ser preparados para a vida missionária dos pais. Por
vezes não é fácil separarem-se de um lugar ao qual se
estabeleceram muitos anos, ou ainda regressar “às origens”
depois de terem vivido durante anos em outro lugar. Mas deixarei
algumas dicas que creio serem importantes para os pais:
É mister os pais
conversarem com os filhos sobre este assunto, não pensando que é
simplesmente natural que seus filhos os sigam, esquecendo-se que
essa mudança também irá afetá-los de alguma maneira. É
fundamental esclarecer que terão que fazer novas amizades, adquirir
novos hábitos, enfrentar novos desafios, aprender novas línguas,
etc; com uma maior frequência que a maioria. Lembrando aqui que os
novos desafios darão uma oportunidade única para conhecerem um
mundo que nunca viram antes, e que poucos terão oportunidade de
conhecer
É importante terem
em mente que muitos filhos de missionário têm que conviver com a
estranheza alheia, sendo algumas vezes rejeitados por serem
estranhos ou diferentes, simplesmente por terem outra religião (e
os crentes não são sempre bem vistos). Eu, por exemplo, cresci no
meio de um país católico, Portugal. Sem dúvida, sendo os
evangélicos somente 1% da população por lá, eramos as vezes
vistos como integrantes de uma seita. Então é importante preparar
seus filhos para o novo contexto.
Não procurem sempre
justificarem-se atrás da desculpa que “porque sou missionário,
não te posso comprar”. Como num caso do Exército de Salvação,
onde o filho de oficiais por nunca ter tido roupa senão a dada por
donativos, se vingou seu primeiro salário, gastando tudo em roupa
nova.
Ajudar seus filhos a
compreender a vossa carreira missionária, pois no contexto do mundo
os seus pais têm uma profissão não reconhecida e de difícil
explicação, não tem salário, etc. Me lembro que quando fui com
meu pai visitar Marrocos, perguntaram-nos na Alfandega qual a sua
profissão dele, e para não dizermos “missionário” com risco
de sermos barrados tivemos que dizer “administrador”, visto que
na altura geria um lar de idosos em nome da igreja que trabalhava.
Procurar tomar
cuidado para não criarem uma “distancia cultural”, trazendo
muitos dos velhos hábitos lá da terrinha, esquecendo que o novo
local possui seus próprios hábitos. É estranho para os filhos
viver anos numa casa totalmente abrasileirada, tendo que conviver
com uma nova realidade assim que atravessam a porta.
Lembrem que existirá
um novo contexto familiar, longe dos avós, tios, primos, e outros
familiares de sangue. Uma boa alternativa é procurar logo cedo
criar amizades com outros missionários que podem também ter filhos
(daí o sentido de pertença a um grupo pode ser fortificado entre
filhos de missionários).
A sociedade brasileira,
no geral, ainda não conhece a realidade de filhos de missionários,
e na verdade poucos estudos são feitos na área por aqui, se é que
existem livros criados ou traduzidos para o português que ensine
sobre o assunto. Em países como os EUA, onde o termo TCK foi criado,
existem mesmo apoios sociais para esses tipos de jovens, assim como
palestras e encontros onde têm a oportunidade de integrar esses
jovens e mesmo educá-los ajudando-os a compreender a sua situação
nesse contexto transitório. Em seu artigo, Pastoreio de filhos de
missionários, Lisanias Loback descreve:
“Todas as igrejas e
pastores sabem da importância das crianças e jovens na igreja, mas,
muitas não têm um plano de trabalho especifico para eles.
Limitam-se a escola dominical e um programa nas férias, reuniões de
jovens e alguns jogos, e isso ainda é feito de uma forma
desorientada e sem planejamento. Infelizmente, as missões vão pelo
mesmo caminho. Não conheço nenhuma missão com um departamento
específico para filhos de missionários. Conheço muitas que vêm os
filhos como uma dificuldade a mais para o missionário, isso mesmo
sabendo que os filhos são uma bênção de Deus na vida de um casal
(missionário ou não).” [2]
Creio ser importante para
a igreja ganhar mais conhecimento do assunto para assim saber como
agir mediante esta situação. É importante ganharem a percepção
que trabalhos podem ser feitos em cima desse assunto, como exemplo, a
realização de acampamentos especiais para filhos de missionários
onde lhes deem a oportunidade destes se integrarem com seus pares,
ajudando-os a compreender melhor a sua posição dentro da vida
missionária; ou ainda educando futuros pastores e missionários
sobre o assunto antes de estes começarem a “por a mão no arado”
viajando pelo mundo com a família (ou ainda antes de começarem
uma), dentro desse contexto. Mas principalmente ensinando a igreja a
orar por seus missionários, reconhecendo ser importante contribuir
financeira e espiritualmente, visto ser algo que trás nitidamente
enormes bençãos espirituais para a igreja. E a atenção aos filhos
de missionários tem parte nesse processo.
[1] - http://filhos-bilingues.blogspot.com.br/2011/04/third-culture-kids.html
[2] - http://www.amtb.org.br/cim/index.php?option=com_content&view=article&id=84:pastoreio-de-filhos-de-missionarios&catid=45:educacao-dos-filhos&Itemid=194